
O ex-deputado Cezar Busatto, a convite da Universidade de Stanford, viajou aos Estados Unidos da América para observar a eleição presidencial norte-americana, em agosto do ano passado. Em seu blog, Vida Democrática, há para baixar em PDF, o livro que ele escreveu, intitulado Um Voluntário na Campanha de Obama. Eu, com meu intuito de entrevistar blogueiros e esforçando-me para recuperar assuntos perdidos no decorrer do tempo em que deixei este blog às moscas, realizei uma entrevista, por telefone, com o Busatto, que, assim como meu último entrevistado, foi extremamente atencioso e simpático. Meus agradecimentos. Vamos ao que interessa:
Matheus Giglio: No dia 30 de abril, completou-se os 100 dias do governo Obama. Qual a sua impressão até o momento?
Cezar Busatto: Eu tenho acompanhado as ações do governo nesse primeiro período, e a minha impressão é a de que, em tão pouco tempo, o governo conseguiu executar, não no sentido de concluir, porque o tempo é pouco, mas no sentido de tomar decisões e começar a executar, praticamente, todos os grandes compromissos que assumiu na época da campanha. E isso é uma coisa fantástica se você considerar, por exemplo, algumas questões, como a definição de um calendário para a retirada das tropas do Iraque, a decisão de fechar Guantánamo, a decisão de começar a implantar o sistema universal de saúde, a pretensão de investir em grande escala num sistema de energia limpa nos Estados Unidos, de igualar os salários de mulheres aos salários de homens para o mesmo trabalho, a decisão de abrir negociações com todos os países, mesmo aqueles considerados inimigos dos Estados Unidos, como o Irã, enfim, todas as principais linhas do discurso de campanha do presidente Obama já estão sendo colocadas em prática. O que me permite dizer que é um governo comprometido com o paradigma da verdade na política. Aquilo que se diz em campanha tem de ser cumprido depois, diferentemente do que tem acontecido nas nossas democracias, particularmente aqui no Brasil.
Matheus Giglio: Em relação ao período que o senhor passou nos E.U.A acompanhando as eleições, quais eram as suas atividades?
Cezar Bustto: Eu fui cadastrado para colaborar com a campanha e acabei sendo voluntário no estado de Nevada. Fui identificado, no meu perfil, como uma pessoa que falava espanhol e fui convidado para trabalhar num estado de língua hispânica.
Matheus Giglio: O que mais o impressionou?
Cezar Busatto: Foi a participação voluntária das pessoas, se reunindo, por uma causa maior que era mudar o país. Evitar que a administração Bush continuasse através do McCain e começar um momento de mudança através do Obama. Essa participação voluntária se deu com milhões de norte-americanos, eu pude testemunhar isso na experiência concreta que vivi lá. E, além disso, o que me impressionou, foi que esses voluntários foram os mesmos que financiaram a campanha. Foi um sistema novo de financiamento de campanha, em que os eleitores financiaram o candidato, e não mais as grandes empresas e os grandes interesses dos “lobbys” que tradicionalmente financiavam os candidatos.
Matheus Giglio: Dessa forma, a gente entra numa questão que está sendo discutida, nesse momento, que é a reforma política no Brasil. Qual a sua opinião sobre essa reforma proposta para o país?
Cezar Busatto: Primeiro está sendo feita uma discussão muito pobre, a sociedade brasileira pouco está discutindo isso, está muito restrito às paredes do Congresso, o que não é bom porque, como já dizia Giordano Bruno, esperar que o poder se auto-reforme em nome da sociedade é difícil, normalmente ele se auto-reforma para o seu próprio benefício. Então, está faltando uma participação mais ativa da sociedade civil nesse debate. Em segundo lugar, restringir a reforma política a listas fechadas e financiamento público de campanha é muito pouco. Por mais que haja dificuldades em outros temas eles tinham que ser pautados para nós podermos evoluir. Discutir voto distrital, misto ou não. Discutir o sistema político, se é presidencialista ou parlamentarista. Discutir a formação dos partidos e a liberdade de organização partidária. Uma série de assuntos que poderiam ser discutidos de uma forma muito mais ampla e com maior participação da sociedade. Mas eu acho que devíamos evoluir a questão dos financiamentos públicos de campanha para o modelo norte-americano. Com os eleitores financiando os candidatos.
Matheus Giglio: Voltando a falar sobre as eleições do Barak Obama, a abordagem feita pela imprensa brasileira, conforme o senhor coloca em seu livro, foi muito insipiente, abordando apenas a questão racial: o primeiro presidente negro da história daquele país. O que faltou ser abordado?
Cezar Busatto: Faltou abordar, por exemplo, todo esse movimento social de mudança, de milhões de norte-americanos que se organizaram nas suas comunidades e que foram o grande motivo da vitória do Obama. Ninguém comenta isso, mas o Obama não teria sido, primeiro, indicado como candidato do partido Democrata e vencido Hillary Clinton, segundo não teria sido eleito e derrotado o McCain, se ele não tivesse sido capaz, como foi, de organizar um movimento mudancista, que chegou a mais de 5 milhões de voluntários que se engajaram, como aconteceu comigo. Com o movimento, de casa em casa, de telefonema em telefonema, de cada voluntário, até mesmo o Estado de Nevada, historicamente Republicano, tornou-se Democrata. Esse tipo de trabalho da sociedade civil, muito pouco presente aqui no Brasil, foi praticamente desconhecido pela imprensa brasileira.
Matheus Giglio: Deputado, para encerrar, no blog Pauta Livre é de praxe o momento em que o entrevistado responde aquelas pequenas curiosidades que todo mundo gosta de saber, mas não interessam a ninguém. Então diga, por favor, uma frase, palavra ou pensamento.
Cezar Busatto: A verdade deve passar a ser o grande paradigma da vida. A verdade a qualquer custo. Acabar com a hipocrisia e com o cinismo que têm sido características da vida política e da vida em sociedade no Brasil.
Matheus Giglio: Um lugar em Porto Alegre?
Cezar Busatto: O pôr-do-sol no Guaíba, é um lugar comum, mas é a coisa mais bonita que nós temos aqui.
Matheus Giglio: Uma música ou músico?
Cezar Busatto: Gonzaguinha.
Matheus Giglio: Um livro ou autor?
Cezar Busatto: Aprender a Viver, de Luc Ferry.