segunda-feira, 11 de maio de 2009

Conversas do Pauta Livre com Cezar Busatto


O ex-deputado Cezar Busatto, a convite da Universidade de Stanford, viajou aos Estados Unidos da América para observar a eleição presidencial norte-americana, em agosto do ano passado. Em seu blog, Vida Democrática, há para baixar em PDF, o livro que ele escreveu, intitulado Um Voluntário na Campanha de Obama. Eu, com meu intuito de entrevistar blogueiros e esforçando-me para recuperar assuntos perdidos no decorrer do tempo em que deixei este blog às moscas, realizei uma entrevista, por telefone, com o Busatto, que, assim como meu último entrevistado, foi extremamente atencioso e simpático. Meus agradecimentos. Vamos ao que interessa:

Matheus Giglio: No dia 30 de abril, completou-se os 100 dias do governo Obama. Qual a sua impressão até o momento?

Cezar Busatto: Eu tenho acompanhado as ações do governo nesse primeiro período, e a minha impressão é a de que, em tão pouco tempo, o governo conseguiu executar, não no sentido de concluir, porque o tempo é pouco, mas no sentido de tomar decisões e começar a executar, praticamente, todos os grandes compromissos que assumiu na época da campanha. E isso é uma coisa fantástica se você considerar, por exemplo, algumas questões, como a definição de um calendário para a retirada das tropas do Iraque, a decisão de fechar Guantánamo, a decisão de começar a implantar o sistema universal de saúde, a pretensão de investir em grande escala num sistema de energia limpa nos Estados Unidos, de igualar os salários de mulheres aos salários de homens para o mesmo trabalho, a decisão de abrir negociações com todos os países, mesmo aqueles considerados inimigos dos Estados Unidos, como o Irã, enfim, todas as principais linhas do discurso de campanha do presidente Obama já estão sendo colocadas em prática. O que me permite dizer que é um governo comprometido com o paradigma da verdade na política. Aquilo que se diz em campanha tem de ser cumprido depois, diferentemente do que tem acontecido nas nossas democracias, particularmente aqui no Brasil.

Matheus Giglio: Em relação ao período que o senhor passou nos E.U.A acompanhando as eleições, quais eram as suas atividades?

Cezar Bustto: Eu fui cadastrado para colaborar com a campanha e acabei sendo voluntário no estado de Nevada. Fui identificado, no meu perfil, como uma pessoa que falava espanhol e fui convidado para trabalhar num estado de língua hispânica.

Matheus Giglio: O que mais o impressionou?

Cezar Busatto: Foi a participação voluntária das pessoas, se reunindo, por uma causa maior que era mudar o país. Evitar que a administração Bush continuasse através do McCain e começar um momento de mudança através do Obama. Essa participação voluntária se deu com milhões de norte-americanos, eu pude testemunhar isso na experiência concreta que vivi lá. E, além disso, o que me impressionou, foi que esses voluntários foram os mesmos que financiaram a campanha. Foi um sistema novo de financiamento de campanha, em que os eleitores financiaram o candidato, e não mais as grandes empresas e os grandes interesses dos “lobbys” que tradicionalmente financiavam os candidatos.

Matheus Giglio: Dessa forma, a gente entra numa questão que está sendo discutida, nesse momento, que é a reforma política no Brasil. Qual a sua opinião sobre essa reforma proposta para o país?

Cezar Busatto: Primeiro está sendo feita uma discussão muito pobre, a sociedade brasileira pouco está discutindo isso, está muito restrito às paredes do Congresso, o que não é bom porque, como já dizia Giordano Bruno, esperar que o poder se auto-reforme em nome da sociedade é difícil, normalmente ele se auto-reforma para o seu próprio benefício. Então, está faltando uma participação mais ativa da sociedade civil nesse debate. Em segundo lugar, restringir a reforma política a listas fechadas e financiamento público de campanha é muito pouco. Por mais que haja dificuldades em outros temas eles tinham que ser pautados para nós podermos evoluir. Discutir voto distrital, misto ou não. Discutir o sistema político, se é presidencialista ou parlamentarista. Discutir a formação dos partidos e a liberdade de organização partidária. Uma série de assuntos que poderiam ser discutidos de uma forma muito mais ampla e com maior participação da sociedade. Mas eu acho que devíamos evoluir a questão dos financiamentos públicos de campanha para o modelo norte-americano. Com os eleitores financiando os candidatos.         

Matheus Giglio: Voltando a falar sobre as eleições do Barak Obama, a abordagem feita pela imprensa brasileira, conforme o senhor coloca em seu livro, foi muito insipiente, abordando apenas a questão racial: o primeiro presidente negro da história daquele país. O que faltou ser abordado?

Cezar Busatto: Faltou abordar, por exemplo, todo esse movimento social de mudança, de milhões de norte-americanos que se organizaram nas suas comunidades e que foram o grande motivo da vitória do Obama. Ninguém comenta isso, mas o Obama não teria sido, primeiro, indicado como candidato do partido Democrata e vencido Hillary Clinton, segundo não teria sido eleito e derrotado o McCain, se ele não tivesse sido capaz, como foi, de organizar um movimento mudancista, que chegou a mais de 5 milhões de voluntários que se engajaram, como aconteceu comigo. Com o movimento, de casa em casa, de telefonema em telefonema, de cada voluntário, até mesmo o Estado de Nevada, historicamente Republicano, tornou-se Democrata. Esse tipo de trabalho da sociedade civil, muito pouco presente aqui no Brasil, foi praticamente desconhecido pela imprensa brasileira.
 
Matheus Giglio: Deputado, para encerrar, no blog Pauta Livre é de praxe o momento em que o entrevistado responde aquelas pequenas curiosidades que todo mundo gosta de saber, mas não interessam a ninguém. Então diga, por favor, uma frase, palavra ou pensamento.

Cezar Busatto: A verdade deve passar a ser o grande paradigma da vida. A verdade a qualquer custo. Acabar com a hipocrisia e com o cinismo que têm sido características da vida política e da vida em sociedade no Brasil.  

Matheus Giglio: Um lugar em Porto Alegre?

Cezar Busatto: O pôr-do-sol no Guaíba, é um lugar comum, mas é a coisa mais bonita que nós temos aqui.

Matheus Giglio: Uma música ou músico?

Cezar Busatto: Gonzaguinha.

Matheus Giglio: Um livro ou autor?

Cezar Busatto: Aprender a Viver, de Luc Ferry.

Mais uma

Esta “nova” crise instaurada no governo Yeda, graças à reportagem da revista Veja dessa semana, repercutida desde ontem em diversos veículos de comunicação, evidencia uma questão em pauta no momento e que devo repercutir aqui neste blog. Hoje, ainda, postarei a entrevista que fiz com o ex-deputado Cezar Busatto, a respeito da campanha do presidente norte-americano Barak Obama. No decorrer da conversa, foi inevitável o assunto reforma política.

Não sei, mas quero saber, se as acusações da revista contra a governadora são verdadeiras, se ela agiu de forma criminosa, se o seu marido recebeu dinheiro de caixa 2, se ela foi traída ou se essas repercussões são marketing político da oposição. Como diz o nosso presidente: não sei de nada. O que sei e todos que acompanham um pouco do noticiário também sabem, é que, independentemente dos governos, seja o partido que for, a forma de financiamento de campanhas feita atualmente é devassa, libertina, amoral. As contribuições privadas, de meia dúzia de empresários, é muito discutível. Qualquer pessoa que se elege nesse país, para o cargo que for, já está previamente sob suspeita. Mesmo as contribuições licitas, sem contar o caixa 2, mesmo as que são registradas e prestadas as devidas contas, indiretamente, podem ser cobradas mais tarde. Ou, sejamos honestos, alguém acredita que grandes empresários confiam tanto em um projeto, que são capazes de doar milhares ou até milhões de reais, por puro idealismo? Sem ganhar nada em troca? Nenhum incentivozinho fiscal mais tarde? Repasse de dinheiro público, mesmo que licitamente? Por favor.

Urge a reforma política. Mas uma boa reforma política. Discutida pela sociedade. Não sei quais os mecanismos legais para que isso possa ser feito. Se um plebiscito ou referendo. No blog do professor Paulo Moura, aqui à esquerda da página, na minha lista de blogs indicados, está um artigo muito interessante sobre essa reforma que estão tentando votar no congresso. Farei uma entrevista com ele sobre o assunto. Até porque ele é meu professor na cadeira de Ciências Políticas, nesse semestre na ULBRA. Aliás, tenho prova hoje.