Conheci um bebum, esses loucos de rua, uma noite dessas, perdido pelo centro. Ele me pediu um cigarro. Eu dei. E então ele disse:
- Amigo, divago pela noite amarela do centro da cidade/Depois de todas as cachaças da minha vida não há vaidade/Ando pelas ruas, pelas calles, pela sarjeta/Apesar da morte iminente/Ainda busco um amor verdadeiro, uma paixão fulminante, ou qualquer buceta/
Perguntei, então, como conseguia, ele, ser tão sábio, fazer poesia e graça, em meio a tanta tristeza e melancolia. Ao que ele responde:
- Viver na rua, a álcool, cachaça e cerveja, vale mais do que qualquer faculdade, sabedoria ocidental, oriental, ou qualquer certeza.
- E qual certeza tens nessa vida? Perguntei.
- Além da morte? Disse ele.
- Sim, além da morte.
- A existência de Deus.
Surpreso, perguntei se ele conseguia acreditar em Deus. Disse-me que sim. Apesar de Deus não existir para todos. E qual é a prova de que Deus existe, pelo menos para alguns? perguntei.
- A prova de que Deus existe é o copo de cerveja, com amigos numa mesa e, na cama, uma globeleza.
Nesse meio tempo, pediu-me outro cigarro. Dei-lhe, perguntando por que fumava.
- Fumo porque o cigarro não faz mal. O mundo seria muito melhor, muito mais feliz e bom se todas as pessoas tivessem a solidariedade e a compaixão de quem fuma, quando se depara com um outro fumante sem fogo ou sem cigarro.
Então saí. Ele agradeceu com um aceno, mais uma vez, os cigarros. Caminhando, sozinho, embaixo das luzes amarelas do centro, que eu dividia com aquele mendigo tão sábio, conclui que a sobriedade nos domina, apriziona. Muito mais a lucidez do álcool que faz o homem ver a vida de forma muito mais honesta.
Assim, entendi porque, quando bebo, a cada gole, chego perto da verdade absoluta sobre as coisas e sobre a vida. Infelizemente, antes de chegar até ela, vem o vômito ou o coma alcoólico. É impressionante como, depois de um porre, quando o álcool diminuiu do sangue, fico chato, enfadonho, racional. Tenho a impressão de que a urina que expilo diminui toda uma percepção de mundo, absolutamente, transcedntal. A mesma percepção que aquele homem de rua, do centro, tem da vida. Apesar de invejar sua sabedoria, prefiro a minha sóbria e confortável ignorância. Contanto que, eventualmente, tenha alguns lampejos de lucidez.
sábado, 20 de setembro de 2008
domingo, 7 de setembro de 2008
Do Baú!
Este texto eu escrevi no começo do ano passado, ainda sob influência da última eleição para presidente da república, que foi, também, a minha primeira eleição. Acho que este texto sintetiza, em parte, o que penso sobre política, democracia, ideais, etc...
Ideologia, eu quero uma pra viver
Ouvi no rádio que Fidel Castro poderia estar em estado terminal de câncer, espantei-me com o que senti. A sensação que tive foi algo que beira a nostalgia, senti falta de um tempo que não vivi.
Não vivi as ideologias de um mundo bipolar, nem a geração do desbunde que almejava uma pra viver. Senti falta de algo transcendental, de um ideal, de fazer parte de uma geração com consciência política ou, ao menos, com alguma consciência. Senti-me como deve se sentir um ex-comunista cinqüentão fadado ao neoliberalismo, com uma brutal diferença, não vivi o sonho. Nunca participei de reuniões partidárias clandestinas, nem apanhei na ditadura, muito menos lutei contra ela. Não idolatrei Lênin, Stálin, Che Guevara ou mesmo Fidel (aliás o vejo mais como um resquício sórdido de um período da história que agoniza, bem como deve estar ele próprio agora). Não estive em Woodstock, não vivi a paz e o amor, não fui um cara pintada, também não fui um militante de esquerda. Vim ao mundo no ano de 1988, ou seja, um pouco antes da redemocratização de fato no Brasil, e votei, pela primeira vez na vida, nessas últimas eleições. Votei contra uma esquerda podre, submersa em maracutaias das mais diversas, a mesma esquerda que os cinqüentões de hoje pensaram que resolveriam as mazelas do país. A esquerda que um dia salvaria o próprio mundo, com uma economia planificada e obsoleta, onde todos seriam iguais.
Sinto-me envergonhado de ver aqueles que um dia tiveram um ideal, traindo a si mesmos e aos seus “companheiros”. Sinto-me envergonhado de ver uma oposição absolutamente igual e de um falso moralismo gritante. Sinto-me envergonhado de pensar que o meu país não tem jeito. Sinto-me envergonhado, principalmente, de estar sentado na frente de um computador com a sensação de não poder fazer nada, de achar que as coisas são assim mesmo e que nada pode mudá-las. Pois digo que há sim, basta que pensemos como jovens que somos. Cheios de sonhos e talvez alguns ideais. Foi a geração de nossos pais e avós que mudaram aquela tese de mundo patriarcal e estagnado, coordenado por raposas velhas, implantando uma antítese reformadora de costumes, tradições, atitudes e ideologias. O que nós devemos nos dar conta é que essa síntese de sociedade voltou a estagnar, e no poder vemos novas raposas velhas. Somente nós podemos fazer algo para mudar esse quadro, e temos uma arma que os velhos não tinham, a democracia. Se não formos nós, uma pequena elite jovem e instruída (sim, por incrível que pareça somos a elite), quem o fará, os pobres cinqüentões?
Ideologia, eu quero uma pra viver
Ouvi no rádio que Fidel Castro poderia estar em estado terminal de câncer, espantei-me com o que senti. A sensação que tive foi algo que beira a nostalgia, senti falta de um tempo que não vivi.
Não vivi as ideologias de um mundo bipolar, nem a geração do desbunde que almejava uma pra viver. Senti falta de algo transcendental, de um ideal, de fazer parte de uma geração com consciência política ou, ao menos, com alguma consciência. Senti-me como deve se sentir um ex-comunista cinqüentão fadado ao neoliberalismo, com uma brutal diferença, não vivi o sonho. Nunca participei de reuniões partidárias clandestinas, nem apanhei na ditadura, muito menos lutei contra ela. Não idolatrei Lênin, Stálin, Che Guevara ou mesmo Fidel (aliás o vejo mais como um resquício sórdido de um período da história que agoniza, bem como deve estar ele próprio agora). Não estive em Woodstock, não vivi a paz e o amor, não fui um cara pintada, também não fui um militante de esquerda. Vim ao mundo no ano de 1988, ou seja, um pouco antes da redemocratização de fato no Brasil, e votei, pela primeira vez na vida, nessas últimas eleições. Votei contra uma esquerda podre, submersa em maracutaias das mais diversas, a mesma esquerda que os cinqüentões de hoje pensaram que resolveriam as mazelas do país. A esquerda que um dia salvaria o próprio mundo, com uma economia planificada e obsoleta, onde todos seriam iguais.
Sinto-me envergonhado de ver aqueles que um dia tiveram um ideal, traindo a si mesmos e aos seus “companheiros”. Sinto-me envergonhado de ver uma oposição absolutamente igual e de um falso moralismo gritante. Sinto-me envergonhado de pensar que o meu país não tem jeito. Sinto-me envergonhado, principalmente, de estar sentado na frente de um computador com a sensação de não poder fazer nada, de achar que as coisas são assim mesmo e que nada pode mudá-las. Pois digo que há sim, basta que pensemos como jovens que somos. Cheios de sonhos e talvez alguns ideais. Foi a geração de nossos pais e avós que mudaram aquela tese de mundo patriarcal e estagnado, coordenado por raposas velhas, implantando uma antítese reformadora de costumes, tradições, atitudes e ideologias. O que nós devemos nos dar conta é que essa síntese de sociedade voltou a estagnar, e no poder vemos novas raposas velhas. Somente nós podemos fazer algo para mudar esse quadro, e temos uma arma que os velhos não tinham, a democracia. Se não formos nós, uma pequena elite jovem e instruída (sim, por incrível que pareça somos a elite), quem o fará, os pobres cinqüentões?
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Niilismo cotidiano
Hoje estava fumando meu Carlton Red (sim, sim, tenho esse mau-hábito, mas estou reduzindo, sério!) quando, não sei bem ao certo como, ele, praticamente, jogou-se da minha mão. Deu uma espécie de duplo twist carpado e quase queimou-me os dedos. Não fazia muito tempo que eu o acendera. E isso, para quem está reduzindo, é um martírio. A minha intenção era a de fumar apenas um cigarro hoje. Não fumava desde quarta-feira, quando fumei uma unidade. E, antes disso, havia fumando apenas no sábado. Então fiquei num dilema. Maldito impasse. Fumo outro, ou não? O cigarro foi ao chão antes de chegar na metade. Se ele tivesse passado da mentade, tecnicamente, podería arredondar para um inteiro e deixar por isso mesmo. Mas ainda não havia saciado minha vontade de fumar um único cigarro. Então pensei: "acendo outro e fumo um pouco mais do que meio, jogo fora e ficam elas por elas?"Mas e o desperdício? Não que eu seja um avarento, mão-de-vaca. Mas é que se deixo outro cigarro cair, propositadamente, são menos dois na carteira. Se eu fumá-lo inteiro, também serão menos dois, eu sei. Entretanto, psicologicamente, isso pesa de maneira diferente. Pelo menos em minha consciência conturbada. Freud explica. Ou não. Explico eu então. Ou tento. Quanto menos cigarros tenho dentro de uma carteira, quer dizer que mais eu fumei. Enquanto, quanto mais cigarros tenho, sinal que menos fumei, e mais tenho para fumar. Dividindo em vários dias. Talvez semanas. O que faz uma carteira durar mais. E eu fumar menos. Ou, pelo menos, dura até o próximo final-de-semana quando, quase que invariavelmente, termino com uma carteira inteira. Tenha ela vinte, tenha ela dois cigarros. Enfim. É complicado. O ideal seria ter força de vontade e largar de vez. Chupar uma bala sete belo. Beber água. Mas força de vontade é pra evangélico. Nada contra os evangélicos. Acho bom eu me tratar, além de tabagista, chego a pensar que estou desenvolvendo TOC.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Final Feliz?
Feliz, Fernando ficava, fitando Fabíola. Fabíola fez-se farmacêutica. Fazendo frademicina, fascinou Fernando (freguês). Ficaram. Foi fantástico. Fizeram freneticamente. Foram-se feriados. Fins-de-semana. Fevereiros. Firmaram formalmente. Festão formidável. Fizeram filhos. Felipe, Fernanda, Fábio. Finalmente, foram fatigando-se. Futilidades. Freqüentes "filho-da-mãe", "foda-se", "fora". Fabíola frígida fingia. Fernando ficara feio. Foram felizes. Foram. FIM
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Como conto contos?
Conquanto comemores coisas contentes,
Corriqueiras
Combinado?
Combinado!
Conto contos
Compartilhando coisas comezinhas
Com comprometimento
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