terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Adultério - Capítulo 3

- Não posso ficar muito tempo, tenho que encontrar a patroa.

- Pô Rogério, deixa de ser pau-mandado cara. Liga pra “nêga véia” e mostra quem usa as calças.

Aqueles homens de meia-idade, com seus cabelos grisalhos e avantajadas barrigas, que denunciavam seus hábitos etílicos, riam feito crianças. Os chopinhos depois do expediente rendiam sempre as mesmas conversas: futebol, alguma situação ocorrida na empresa, algum colega que falecia prematuramente e, claro, mulheres.

- Vocês viram como está a Linda?

- A estagiária da Contabilidade?

- Não era dela que eu estava falando. Mas já que mencionou. Que guriazinha bem gostosa. Vocês viram o tamanho da bunda? Pelo amor de Deus!

- E ela nem é tão bonita. Mas é boa. Farta né?

- Sim, farta. “Farta” pouco para ser gordinha. Mas não é. Eu só que-
ria duas horinhas com ela.

- E eu, quinze minutos.

Mais uma vez, as gargalhadas, propagando-se em meio a fumaça dos cigarros e aos canecos de chope, chamavam a atenção para a mesa daqueles cinco homens. Colegas e amigos. Mais do que colegas, cúmplices. Companheiros de trabalho e, como gostava de falar Adalberto - o mais velho da turma - companheiros de “fubangagem”. E é ele quem repara a desatenção e o desconforto de Rogério:

- O que foi Midas? (era como chamavam Rogério, dizendo que qualquer coisa em suas mãos virava ouro) Ficou quieto quando começamos a falar da Lindinha da contabilidade? O que tu achas?

- Muito gostosa. Mas é uma guriazinha. Quase pedofilia. Acho que o Paulão ia falar
de outra. Quem é?

- A Lindalva.

- Que Lindalva o quê? A mulher ta acabada. Teve passado, mas já era. Desdenha Julio.

- Olha lá que a separação fez bem pra titia. Ta “inteiraça”. “Recauchutada”. Bonitona. Replica Paulão.

- Bem capaz! Essa aí ta aposentada. Já deu o que tinha que dar.

- Ah, pára Julio. Tu já andaste “de mãozinha” com coisa bem pior na
Rua da Praia. E ainda pagou.

E mais risadas.

Linda e Lindalva, apesar de terem o mesmo nome e apelido, não se pareciam em nada. A segunda, separada do marido recentemente, tinha 54 anos. Denunciava, em suas características, ter sido belíssima um dia. Ainda possuía alguns atributos. Bonito rosto, marcado por algumas rugas, seios fartos, porém com mais de meio século de vida, e pernas como jamais se viu. Nisso, todos concordavam, eram as mais belas pernas que já viram. Vinte anos antes, quando a maioria deles entrara na empresa, eram ainda melhores, evidentemente. Mas ainda serviam muito bem, até mesmo aos mais seletivos. Longas e rijas pernas. Grossas e lindas.

A primeira Linda, do alto dos seus 20 anos, não era o estereótipo de beleza. Mas era abundante, exageradamente gostosa. Os mais rudes a chamavam de potranca. Clarismunda. Porém, nem tão feia de cara assim. Com um corpo que, inevitavelmente, sucumbiria à ação da gravidade um dia. Mas dali a muito tempo. Aos 20 anos, não parecia haver fenômeno físico capaz de deixar aquele corpo menos cobiçado. As outras mulheres da empresa a chamavam de gorda. Argüindo que, quando Linda tivesse a idade delas, não chegaria aos seus pés. O fato é que ela não tinha a idade delas. Por motivos bem diferentes dos de Rogério, a menina também era invejada. E era justamente isso o que mais o atraia.