sábado, 20 de setembro de 2008

Papo de bêbado

Conheci um bebum, esses loucos de rua, uma noite dessas, perdido pelo centro. Ele me pediu um cigarro. Eu dei. E então ele disse:

- Amigo, divago pela noite amarela do centro da cidade/Depois de todas as cachaças da minha vida não há vaidade/Ando pelas ruas, pelas calles, pela sarjeta/Apesar da morte iminente/Ainda busco um amor verdadeiro, uma paixão fulminante, ou qualquer buceta/

Perguntei, então, como conseguia, ele, ser tão sábio, fazer poesia e graça, em meio a tanta tristeza e melancolia. Ao que ele responde:

- Viver na rua, a álcool, cachaça e cerveja, vale mais do que qualquer faculdade, sabedoria ocidental, oriental, ou qualquer certeza.

- E qual certeza tens nessa vida? Perguntei.

- Além da morte? Disse ele.

- Sim, além da morte.

- A existência de Deus.

Surpreso, perguntei se ele conseguia acreditar em Deus. Disse-me que sim. Apesar de Deus não existir para todos. E qual é a prova de que Deus existe, pelo menos para alguns? perguntei.

- A prova de que Deus existe é o copo de cerveja, com amigos numa mesa e, na cama, uma globeleza.

Nesse meio tempo, pediu-me outro cigarro. Dei-lhe, perguntando por que fumava.

- Fumo porque o cigarro não faz mal. O mundo seria muito melhor, muito mais feliz e bom se todas as pessoas tivessem a solidariedade e a compaixão de quem fuma, quando se depara com um outro fumante sem fogo ou sem cigarro.

Então saí. Ele agradeceu com um aceno, mais uma vez, os cigarros. Caminhando, sozinho, embaixo das luzes amarelas do centro, que eu dividia com aquele mendigo tão sábio, conclui que a sobriedade nos domina, apriziona. Muito mais a lucidez do álcool que faz o homem ver a vida de forma muito mais honesta.

Assim, entendi porque, quando bebo, a cada gole, chego perto da verdade absoluta sobre as coisas e sobre a vida. Infelizemente, antes de chegar até ela, vem o vômito ou o coma alcoólico. É impressionante como, depois de um porre, quando o álcool diminuiu do sangue, fico chato, enfadonho, racional. Tenho a impressão de que a urina que expilo diminui toda uma percepção de mundo, absolutamente, transcedntal. A mesma percepção que aquele homem de rua, do centro, tem da vida. Apesar de invejar sua sabedoria, prefiro a minha sóbria e confortável ignorância. Contanto que, eventualmente, tenha alguns lampejos de lucidez.

domingo, 7 de setembro de 2008

Do Baú!

Este texto eu escrevi no começo do ano passado, ainda sob influência da última eleição para presidente da república, que foi, também, a minha primeira eleição. Acho que este texto sintetiza, em parte, o que penso sobre política, democracia, ideais, etc...

Ideologia, eu quero uma pra viver

Ouvi no rádio que Fidel Castro poderia estar em estado terminal de câncer, espantei-me com o que senti. A sensação que tive foi algo que beira a nostalgia, senti falta de um tempo que não vivi.

Não vivi as ideologias de um mundo bipolar, nem a geração do desbunde que almejava uma pra viver. Senti falta de algo transcendental, de um ideal, de fazer parte de uma geração com consciência política ou, ao menos, com alguma consciência. Senti-me como deve se sentir um ex-comunista cinqüentão fadado ao neoliberalismo, com uma brutal diferença, não vivi o sonho. Nunca participei de reuniões partidárias clandestinas, nem apanhei na ditadura, muito menos lutei contra ela. Não idolatrei Lênin, Stálin, Che Guevara ou mesmo Fidel (aliás o vejo mais como um resquício sórdido de um período da história que agoniza, bem como deve estar ele próprio agora). Não estive em Woodstock, não vivi a paz e o amor, não fui um cara pintada, também não fui um militante de esquerda. Vim ao mundo no ano de 1988, ou seja, um pouco antes da redemocratização de fato no Brasil, e votei, pela primeira vez na vida, nessas últimas eleições. Votei contra uma esquerda podre, submersa em maracutaias das mais diversas, a mesma esquerda que os cinqüentões de hoje pensaram que resolveriam as mazelas do país. A esquerda que um dia salvaria o próprio mundo, com uma economia planificada e obsoleta, onde todos seriam iguais.

Sinto-me envergonhado de ver aqueles que um dia tiveram um ideal, traindo a si mesmos e aos seus “companheiros”. Sinto-me envergonhado de ver uma oposição absolutamente igual e de um falso moralismo gritante. Sinto-me envergonhado de pensar que o meu país não tem jeito. Sinto-me envergonhado, principalmente, de estar sentado na frente de um computador com a sensação de não poder fazer nada, de achar que as coisas são assim mesmo e que nada pode mudá-las. Pois digo que há sim, basta que pensemos como jovens que somos. Cheios de sonhos e talvez alguns ideais. Foi a geração de nossos pais e avós que mudaram aquela tese de mundo patriarcal e estagnado, coordenado por raposas velhas, implantando uma antítese reformadora de costumes, tradições, atitudes e ideologias. O que nós devemos nos dar conta é que essa síntese de sociedade voltou a estagnar, e no poder vemos novas raposas velhas. Somente nós podemos fazer algo para mudar esse quadro, e temos uma arma que os velhos não tinham, a democracia. Se não formos nós, uma pequena elite jovem e instruída (sim, por incrível que pareça somos a elite), quem o fará, os pobres cinqüentões?